Do solo à comercialização: como tecnologia e gestão podem proteger a rentabilidade no agronegócio

Foto: Henrique Campinha

Em um cenário de margens cada vez mais pressionadas, proteger a rentabilidade da produção agrícola exige uma visão que vai além da produtividade. Essa foi uma das principais conclusões dos talks realizados por startups ligadas ao Cocriagro, durante o Circuito SRP – Milho: Estratégias para Proteger a Rentabilidade no Campo, realizado no dia 17 de junho, no Parque Ney Braga.

Especialistas em pós-colheita, inteligência artificial e saúde do solo apresentaram soluções que ajudam produtores a reduzir perdas, melhorar a tomada de decisão e aumentar a eficiência ao longo de toda a cadeia produtiva.


Perdas no pós-colheita ainda comprometem resultados

Vinícius Ortiz, da Termoplex, apresentou tecnologias para monitoramento pós-colheita e destaca como a gestão de dados pode reduzir perdas no armazenamento de grãos


Abrindo a sequência de talks, Vinícius Ortiz, desenvolvedor e fundador da Termoplex, abordou os fatores que influenciam a perda de grãos no pós-colheita.

Segundo dados apresentados durante a palestra, o Brasil ainda enfrenta um déficit de armazenagem estimado em 35%, enquanto as perdas de grãos podem chegar a 15% ao longo da cadeia pós-colheita. Desse total, cerca de 67% das perdas ocorrem durante o armazenamento.

Para Ortiz, a redução dessas perdas depende principalmente da capacidade de monitorar continuamente as condições dos grãos armazenados, “é tão importante quanto tomar a decisão correta”, enfatiza.

O especialista explicou que, mesmo após a colheita, o grão continua sendo um organismo vivo, sujeito a processos metabólicos, troca de umidade, fermentação e ataques de pragas.

Entre os principais indicadores que devem ser acompanhados estão temperatura, umidade, concentração de CO2 e condições climáticas, fatores que influenciam diretamente a qualidade do produto armazenado.

Além do monitoramento, Ortiz destacou o papel da automação e dos sistemas inteligentes de apoio à decisão, capazes de gerar alertas e recomendações de manejo baseados em dados confiáveis.


Inteligência artificial traz mais transparência à classificação de grãos

Davi Krieger, da Neosilos, mostrando o funcionamento de um classificador inteligente de grãos, tecnologia que utiliza inteligência artificial para tornar a análise mais rápida e precisa de grãos


Na sequência, o engenheiro agrônomo e diretor de operações da Neosilos, Davi Krieger da Silva, apresentou aplicações de inteligência artificial voltadas à classificação de grãos.

O especialista chamou atenção para um problema pouco percebido pelo setor que boa parte da definição do valor recebido pelo produtor ainda depende de processos visuais e avaliações humanas, que podem variar conforme o profissional responsável pela análise. Desta forma, a análise sempre pode conter erros e serem feitas de formas diferentes.

Segundo ele, a inteligência artificial permite reduzir subjetividades e criar critérios padronizados para a classificação. “A inteligência artificial traz mais justiça e transparência”, comentou.

A tecnologia desenvolvida pela Neosilos utiliza milhões de imagens e amostras para identificar características dos grãos com elevado grau de precisão. Entre os benefícios apresentados estão maior velocidade nas análises, redução de filas nas unidades de recebimento, padronização dos resultados e aumento da transparência para produtores e compradores.

O sistema também permite acesso digital aos relatórios, imagens das classificações e histórico das entregas em tempo real, ampliando a rastreabilidade do processo.

Davi Krieger explica que a digitalização da classificação representa um avanço importante para reduzir divergências comerciais e proporcionar maior previsibilidade financeira ao produtor.


A rentabilidade começa antes do plantio

Carlos Almeida, da The Soil Company, destacou a importância da saúde do solo como base para a produtividade e a rentabilidade no campo


Fechando os talks do Circuito SRP, Carlos Eduardo de Castro Almeida, diretor comercial da Laborsolo e cofundador da The Soil Company, apresentou uma reflexão sobre a relação entre saúde do solo e rentabilidade.

O especialista comentou que a busca por eficiência deve começar pela compreensão mais profunda das características do solo.

Um dos principais alertas da apresentação foi sobre a crença de que maiores aplicações de fertilizantes necessariamente resultam em melhores resultados produtivos. “Solo bom não se constrói jogando mais fertilizante. Muitas vezes, é exatamente o contrário”, enfatizou.

Segundo Carlos Eduardo, a construção de um solo saudável depende de fatores biológicos, físicos e químicos que vão além das análises tradicionais de fertilidade.

Ele destacou que solos resilientes apresentam maior estabilidade produtiva ao longo dos anos, reduzindo riscos em períodos de adversidade climática e contribuindo para uma gestão mais eficiente dos custos.

A análise desenvolvida pela The Soil Company envolve o uso de dados detalhados, geoprocessamento, histórico produtivo e modelos analíticos capazes de gerar recomendações personalizadas para cada área da propriedade.


Conhecimento, tecnologia e dados para proteger margens

Embora tenham abordado diferentes etapas da cadeia do milho, os três talks apontaram para um mesmo desafio: a competitividade do agronegócio depende cada vez mais do produtor investindo em tecnologia assertivas.

Seja na construção da fertilidade do solo, no monitoramento da armazenagem ou na classificação dos grãos, a tecnologia tem assumido papel estratégico para reduzir perdas, aumentar a eficiência operacional e proteger a rentabilidade das propriedades rurais.



Atualizado em 03/07/2026 às 14:34